Fevereiro de 2026: o que mudou no cenário global e no Brasil e como isso impacta os investimentos

O mês de fevereiro foi marcado por um ambiente global ainda caracterizado por incertezas geopolíticas e comerciais, mas com crescimento econômico resiliente nas principais economias. A dinâmica internacional continuou influenciando de forma relevante os mercados financeiros e os fluxos de capitais, criando um contexto relativamente favorável para ativos de economias emergentes.

Nos Estados Unidos, a atividade econômica permaneceu sólida, sustentada principalmente pela demanda doméstica e pelo avanço do investimento ligado à inteligência artificial. Em 2025, o PIB americano cresceu 2,2%, após registrar expansão anualizada de 1,4% no quarto trimestre, com a demanda doméstica avançando 2,4% no trimestre e 2,7% no ano. Parte relevante desse desempenho esteve associada ao aumento do investimento privado em infraestrutura tecnológica. No entanto, a inflação continua mostrando persistência acima da meta, o que limita o espaço para cortes de juros no curto prazo. O núcleo do índice de preços PCE encerrou 2025 com variação de 3,0% ao ano, evidenciando a dificuldade de convergência final para a meta de 2%. Para 2026, estima-se que a inflação mensal média entre janeiro e março fique próxima de 0,35%, equivalente a aproximadamente 4,2% em termos anualizados, o que reforça a perspectiva de que eventuais reduções na taxa de juros ocorram apenas ao longo da segunda metade do ano.

Na Europa, a atividade econômica apresentou sinais de recuperação gradual, apoiada por condições financeiras mais favoráveis e pela implementação inicial de estímulos fiscais na Alemanha. A projeção de crescimento do PIB da região para 2026 permanece em 1,2%, em um cenário de demanda doméstica relativamente resiliente, especialmente no investimento. Do ponto de vista inflacionário, o processo de convergência para a meta de 2% continua em andamento, o que tem permitido ao Banco Central Europeu manter uma postura mais estável na condução da política monetária.

Na China, o crescimento segue sustentado principalmente pelo desempenho das exportações, enquanto a demanda doméstica continua relativamente fraca. As metas de crescimento estabelecidas pelas províncias indicam uma possível meta nacional entre 4,5% e 5,0% para 2026, patamar levemente inferior ao adotado nos anos anteriores. Mesmo assim, o cenário atual não indica urgência para a implementação de estímulos econômicos de grande magnitude, uma vez que o setor externo tem compensado parte das fragilidades internas. O ambiente financeiro internacional também tem favorecido uma modesta reavaliação dos ativos chineses, com possibilidade de apreciação moderada do yuan para níveis próximos de 6,85 por dólar.

No Brasil, os dados de atividade econômica reforçam a percepção de desaceleração gradual em alguns segmentos. A produção industrial encerrou o quarto trimestre de 2025 com retração de 0,7%. Em dezembro, a produção industrial recuou 1,2% na margem, com destaque negativo para bens de capital (-8,3%) e bens de consumo duráveis (-4,4%). 

Os dados do comércio varejista também mostraram perda de fôlego na margem. Em dezembro, as vendas do varejo restrito recuaram 0,4% frente ao mês anterior, embora ainda apresentem crescimento de 2,3% na comparação interanual. No varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, a queda foi mais intensa, com retração de 1,2% na margem, sinalizando um ambiente de consumo mais moderado no encerramento do ano.

Apesar desses sinais de arrefecimento da atividade, o mercado de crédito seguiu apresentando crescimento nas concessões tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. Esse movimento ocorre mesmo em um contexto de taxas de juros ainda elevadas e níveis historicamente altos de inadimplência das famílias, sugerindo certo descompasso entre os efeitos da política monetária e a dinâmica da demanda por crédito. Esse comportamento pode indicar uma deterioração gradual na qualidade da expansão do crédito, com possíveis implicações para o consumo à frente.

No campo da inflação, o IPCA registrou alta de 0,33% em janeiro, levemente acima do esperado pelo mercado. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses atingiu 4,4%, após 4,3% em dezembro. Já a prévia da inflação de fevereiro indicou um avanço mais expressivo no curto prazo. O IPCA-15 subiu 0,84% no mês, superando as expectativas de mercado. Apesar da surpresa na margem, o indicador acumulado em 12 meses recuou para 4,1%, após 4,5% registrados em janeiro, sugerindo desaceleração ao longo do ano. 

As contas externas seguiram relativamente equilibradas, apesar de alguma volatilidade pontual. O déficit em conta corrente atingiu US$ 8,4 bilhões em janeiro, equivalente a cerca de 2,9% do PIB em termos acumulados em 12 meses, patamar ainda elevado em termos históricos, mas inferior ao observado no ano anterior. O financiamento desse déficit continuou sendo sustentado por fluxos de capital estrangeiro, com destaque para o investimento direto no país, que registrou entrada de US$ 8,2 bilhões no mês e acumula US$ 79,1 bilhões em 12 meses, aproximadamente 3,4% do PIB.

Nesse contexto, a condução da política monetária começou a incorporar sinais mais claros de que o ciclo restritivo pode se aproximar do fim. A melhora gradual das expectativas de inflação e a desaceleração parcial da atividade econômica ampliaram a confiança do mercado de que o processo de flexibilização monetária poderá iniciar nos próximos meses. As precificações de mercado passaram a embutir uma trajetória de cortes de aproximadamente 0,50 ponto percentual por reunião, o que poderia levar a taxa Selic para patamar próximo de 12,5% antes das eleições de outubro.

Os mercados financeiros refletiram esse ambiente relativamente mais construtivo. A moeda brasileira apresentou apreciação relevante ao longo do período, com o dólar comercial encerrando fevereiro a R$ 5,14, o menor nível desde maio de 2024, acumulando valorização do real de 6,4% no ano. No mercado acionário, o fluxo estrangeiro e a rotação global de investimentos em direção a ativos ligados à economia real favoreceram a bolsa brasileira. O Ibovespa acumulou valorização de de 17,17% no ano, enquanto alguns setores apresentaram desempenho ainda mais expressivo, como o índice financeiro (+19,11%) e o setor de utilities (+13,71%). Na renda fixa, os títulos indexados à inflação também tiveram desempenho positivo, com o IMA-B 5 + avançando 2,24% em fevereiro e 3,09% no acumulado do ano.

Em linhas gerais, os dados divulgados ao longo de fevereiro reforçaram a percepção de uma economia global ainda resiliente, ao mesmo tempo em que a atividade doméstica começa a mostrar sinais de moderação. A melhora gradual das expectativas de inflação também contribuiu para um ambiente mais favorável aos ativos brasileiros, aumentando a confiança de que a política monetária poderá iniciar um processo de flexibilização nos próximos meses. Ainda assim, a resiliência observada em alguns indicadores de atividade e crédito sugere que esse movimento deve ocorrer de forma gradual, exigindo cautela na avaliação do ritmo e da intensidade dos próximos passos da política monetária.

Conflito no Oriente Médio, energia e inflação: implicações para os mercados globais

A recente escalada militar no Oriente Médio introduziu um novo vetor de risco para o cenário macroeconômico global. Ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã ampliaram a incerteza em uma das regiões mais sensíveis para o sistema energético mundial, elevando a percepção de risco geopolítico e trazendo novamente à tona o papel estratégico do Golfo Pérsico para o funcionamento da economia global.
Nesse contexto, o principal efeito do episódio atual para a política monetária brasileira é a introdução de um elemento adicional de cautela no curto prazo. O Banco Central tende a acompanhar de perto a evolução dos preços de energia e seus possíveis impactos sobre as expectativas de inflação, mas um choque predominantemente temporário não altera, em essência, a trajetória estrutural do processo desinflacionário.

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