
Julho foi um mês de transição importante para o cenário macroeconômico. Enquanto o ambiente internacional permaneceu marcado por elevada incerteza, impulsionada principalmente pelas tensões geopolíticas e pela postura cautelosa do Federal Reserve, os indicadores domésticos passaram a mostrar um quadro mais favorável para a condução da política monetária no Brasil. Ao longo do mês, a sequência de divulgações reforçou a percepção de um cenário inflacionário mais benigno, ao mesmo tempo em que surgiram sinais mais claros de desaceleração da atividade econômica. Essa combinação fortaleceu a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic, embora o cenário externo permaneça como o principal fator de atenção para os mercados. Cenário Internacional O ambiente global continuou desafiador durante julho. A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a elevar a volatilidade dos mercados internacionais, principalmente por meio do mercado de petróleo. O Brent oscilou entre US$ 86 e US$ 100 por barril ao longo do mês, pressionando as expectativas de inflação e contribuindo para a abertura das taxas dos títulos do Tesouro americano. Embora a commodity tenha encerrado o período próxima de US$ 87, o cenário geopolítico permaneceu como uma importante fonte de risco para os ativos globais. Os indicadores econômicos norte-americanos apresentaram sinais mistos. O mercado de trabalho mostrou perda de ritmo, com a criação de 57 mil vagas no payroll de junho, abaixo das 113 mil esperadas. Ainda assim, a taxa de desemprego recuou para 4,2%, o menor nível em um ano, indicando que o mercado de trabalho permanece relativamente resiliente. Na inflação, os dados surpreenderam positivamente. O CPI de junho registrou deflação de 0,42%, frente à expectativa de -0,10%, enquanto o PPI recuou 0,3% e seu núcleo avançou apenas 0,2%, abaixo da projeção de 0,3%. Apesar dessas leituras mais benignas, a melhora não foi suficiente para alterar de forma significativa a percepção sobre a inflação americana. A retomada da alta do petróleo reduziu parte do otimismo gerado pelos indicadores e manteve o Federal Reserve em uma postura cautelosa. Ao final do mês, o Fed manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75%, mas a decisão veio acompanhada de um discurso firme, com três dirigentes votando por uma alta imediata de 25 pontos-base. Como consequência, o mercado passou a precificar aproximadamente 60% de probabilidade de uma elevação dos juros na reunião de setembro, mantendo o cenário internacional como a principal fonte de incerteza para os próximos meses. Brasil No cenário doméstico, julho trouxe uma sequência de indicadores que gradualmente alterou a percepção do mercado sobre a economia brasileira. Os primeiros sinais vieram por meio das expectativas de inflação. O Relatório Focus reduziu a projeção para o IPCA de 2026 de 5,33% para 5,30%, indicando um possível ponto de inflexão na deterioração das expectativas inflacionárias. Essa percepção ganhou força ao longo do mês. O IPCA de junho registrou alta de apenas 0,16%, abaixo da expectativa de 0,31%. Além do resultado agregado, a composição mostrou melhora importante, com deflação nos preços dos alimentos, desaceleração dos núcleos de inflação e perda de intensidade dos preços de serviços. Ainda assim, os componentes mais ligados ao mercado de trabalho continuaram pressionados, reforçando que, apesar da melhora das leituras recentes, ainda era cedo para concluir que a inflação havia entrado em uma trajetória estrutural de desaceleração. A sequência de divulgações reforçou essa percepção. O IPCA-15 de julho avançou apenas 0,06%, frente à expectativa de 0,21%, fazendo a inflação acumulada em 12 meses recuar de 4,80% para 4,52%. A surpresa foi explicada principalmente pela queda dos preços dos alimentos in natura, da gasolina, do vestuário e de alguns bens duráveis, fortalecendo a leitura de um cenário inflacionário mais benigno. Ao mesmo tempo, os indicadores de atividade passaram a mostrar com maior clareza os efeitos da política monetária restritiva sobre a economia. A produção industrial de maio registrou retração de 0,2% na comparação mensal, enquanto o mercado esperava crescimento de 0,3%, sinalizando perda gradual de dinamismo da indústria. Posteriormente, a divulgação referente a junho reforçou essa leitura, com queda de 1,8% frente ao mês anterior, abaixo da expectativa de -0,9%. Na comparação interanual, a indústria avançou apenas 1,7%, frente à expectativa de 3,0%, levando o carrego estatístico para o PIB do terceiro trimestre a aproximadamente -1,5%. Os indicadores de consumo caminharam na mesma direção. O setor de serviços apresentou crescimento anual de 0,4%, ligeiramente abaixo da expectativa de 0,5%, enquanto o varejo surpreendeu negativamente, com retração de 0,6%, frente à expectativa de expansão de 1,1%. Já o IBC-Br avançou 0,8% na comparação anual, indicando que a economia continua crescendo, porém em ritmo mais moderado. O mercado de trabalho permaneceu resiliente, mas também começou a apresentar sinais de desaceleração. O Novo Caged registrou criação líquida de 145 mil empregos formais, acima da expectativa de 115 mil vagas. Apesar do resultado positivo, a composição das admissões mostrou perda gradual de dinamismo justamente nos setores mais sensíveis aos juros elevados, indicando que os efeitos defasados da política monetária começam a aparecer de forma mais evidente sobre a atividade econômica.










