
O ambiente macroeconômico global continua sendo marcado pela combinação de crescimento resiliente e inflação persistente. Nos Estados Unidos, o núcleo do PCE, principal indicador de inflação acompanhado pelo Federal Reserve, avançou 3,3% em 12 meses, enquanto medidas subjacentes de inflação seguem apontando pressões relevantes, com a tendência inflacionária monitorada pelo Fed de Nova York acelerando de 3,0% para 4,0% nos últimos meses. Esse cenário tem levado o mercado a revisar as expectativas para a política monetária, reduzindo as apostas em cortes de juros e reforçando a percepção de que as taxas deverão permanecer elevadas por mais tempo.
No Brasil, a atividade econômica continua demonstrando força. O PIB do primeiro trimestre registrou crescimento de 1,1% na comparação trimestral, acima das expectativas de mercado, elevando o carregamento estatístico para 1,4% em 2026. O mercado de trabalho permanece aquecido, com a taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua em 5,8%, próxima das mínimas históricas, enquanto o CAGED registrou a criação líquida de 85,8 mil vagas formais em abril. Apesar do resultado abaixo das expectativas, o conjunto dos indicadores ainda aponta para uma economia resiliente, sustentando a renda das famílias e o consumo.
A inflação segue sendo o principal desafio para a economia brasileira. O IPCA-15 de maio avançou 0,62%, acima da expectativa de mercado de 0,57%, refletindo principalmente a pressão dos grupos de alimentação e serviços. Os serviços intensivos em mão de obra continuam apresentando inflação anualizada superior a 7%, evidenciando que as pressões domésticas permanecem elevadas. Nesse contexto, as projeções para o IPCA ao fim de 2026 situam-se entre 5,3% e 5,6%, permanecendo significativamente acima da meta de inflação de 3,0%.
Parte dessas pressões inflacionárias decorre de fatores de oferta. Os preços internacionais dos fertilizantes acumulam alta próxima de 57% no ano, elevando os custos do setor agrícola e aumentando os riscos para os preços dos alimentos. Além disso, os efeitos defasados da alta observada nos preços do petróleo ao longo do primeiro trimestre e a possibilidade de um episódio mais intenso de El Niño no segundo semestre seguem adicionando incertezas ao cenário inflacionário.
Por outro lado, a valorização acumulada do real ao longo dos últimos doze meses continua desempenhando papel importante como amortecedor inflacionário. A taxa de câmbio, que chegou a operar próxima de R$ 5,00 por dólar em maio, contribui para reduzir pressões sobre bens industriais, combustíveis e preços administrados. Ainda assim, a proximidade do ciclo eleitoral tende a aumentar a volatilidade cambial ao longo dos próximos meses.
Do ponto de vista estrutural, os dados recentes reforçam um desafio importante para o crescimento brasileiro. Apesar do bom desempenho da atividade, a produtividade do trabalho recuou 0,1% no primeiro trimestre, acumulando crescimento de apenas 4% nos últimos 14 anos, equivalente a aproximadamente 0,3% ao ano. Isso sugere que parte relevante da expansão econômica recente tem ocorrido por meio do maior uso dos fatores produtivos, e não por ganhos de eficiência, limitando o potencial de crescimento sem a geração de pressões inflacionárias adicionais.
Nesse contexto, a condução da política monetária tende a permanecer cautelosa. O mercado segue projetando um corte adicional de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, levando a taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano. Entretanto, a combinação entre atividade resiliente, mercado de trabalho aquecido e inflação pressionada reduziu significativamente a probabilidade de novos cortes ao longo do segundo semestre. Nossa expectativa é de que o Banco Central adote um tom mais cauteloso nas próximas comunicações, sinalizando uma possível pausa no ciclo de flexibilização monetária para avaliar os efeitos defasados da política monetária sobre a economia e a evolução das expectativas de inflação.
Seguimos acompanhando atentamente a trajetória da inflação, da atividade econômica e das condições financeiras globais, fatores que continuarão sendo determinantes para o comportamento dos mercados e para as decisões de investimento ao longo dos próximos meses.










