
A semana foi marcada por indicadores que reforçaram a resiliência da economia brasileira, ao mesmo tempo em que mantiveram dúvidas sobre a continuidade do ciclo de flexibilização monetária. No exterior, o foco dos investidores esteve voltado para os desdobramentos geopolíticos envolvendo Estados Unidos e Irã e para novos dados de inflação norte-americanos, que continuam desempenhando papel importante na formação das expectativas para a política monetária global.
No Brasil, o principal destaque foi a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2026, que avançou 1,1% em relação ao trimestre anterior e 1,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. O resultado veio ligeiramente acima das expectativas de mercado e confirmou que a atividade econômica segue resiliente, sustentada pelo consumo das famílias e pelos investimentos. A composição do crescimento mostrou aceleração em setores mais sensíveis ao ciclo de juros, como serviços, comércio e construção, sugerindo que a economia permanece mais aquecida do que o esperado mesmo após o período de aperto monetário.
No campo inflacionário, o IPCA-15 de maio registrou alta de 0,62%, acima da expectativa de mercado de 0,57%, elevando a inflação acumulada em 12 meses para 4,6%, ante 4,4% observados em abril. A surpresa foi puxada principalmente pelos preços de alimentação no domicílio, enquanto os núcleos de inflação continuaram apresentando sinais de pressão, especialmente nos segmentos de serviços e bens industriais. O resultado reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária e mantém o balanço de riscos para a inflação ainda assimétrico para cima.
Mercado de trabalho
Os dados do mercado de trabalho mostraram uma desaceleração gradual da geração de empregos. Segundo o Caged, foram criadas 85,9 mil vagas formais em abril, resultado significativamente inferior às expectativas de mercado, que apontavam para cerca de 211 mil postos de trabalho. Apesar da moderação, o saldo acumulado no ano permanece próximo de 700 mil vagas, evidenciando que o mercado de trabalho segue resiliente. Complementando esse quadro, a taxa de desemprego ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril e em 5,4% na série com ajuste sazonal, permanecendo próxima das mínimas históricas observadas nos últimos anos.
Na esfera fiscal, o governo central registrou superávit primário de R$ 25,2 bilhões em abril, resultado superior às expectativas do mercado e impulsionado por receitas mais fortes e menores transferências para estados e municípios. Apesar da surpresa positiva no curto prazo, as perspectivas fiscais permanecem desafiadoras diante do aumento das despesas obrigatórias e da necessidade de compensações para medidas recentes de desoneração tributária.
No ambiente político, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a proposta que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e prevê o fim gradual da escala 6x1. O texto segue agora para análise do Senado e continuará sendo acompanhado pelos agentes econômicos em razão de seus potenciais impactos sobre produtividade, custos trabalhistas e dinâmica do mercado de trabalho.
Panorama internacional
O governo dos Estados Unidos anunciou a classificação de duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, adicionando um novo elemento de atenção à relação diplomática entre os dois países. Paralelamente, houve sinais de redução das tensões entre Estados Unidos e Irã após notícias indicando avanços nas negociações para ampliação do cessar-fogo e discussões envolvendo o programa nuclear iraniano. Embora as incertezas permaneçam, a melhora do ambiente geopolítico contribuiu para reduzir parte da aversão ao risco observada nas semanas anteriores.
Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo índice PCE apresentou alta de 0,4% em abril, enquanto o núcleo avançou 0,2%, ambos abaixo das expectativas do mercado. Em termos anuais, o PCE atingiu 3,8% e seu núcleo permaneceu em 3,3%, ainda significativamente acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. Os números reforçam a percepção de que o banco central americano continuará adotando uma postura cautelosa antes de promover novos cortes de juros.
Mercados
O Ibovespa encerrou a semana com queda de 1,37%, aos 173.787 pontos. Apesar da divulgação de um PIB mais forte, a leitura de uma atividade econômica resiliente elevou as dúvidas sobre a intensidade e a velocidade do ciclo de redução da Selic, contribuindo para um movimento de realização de lucros na bolsa brasileira. No mercado cambial, o dólar à vista encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,04, acumulando valorização de 1,82% no mês, refletindo ajustes de expectativas para a política monetária doméstica e um ambiente global ainda marcado por incertezas.
Agenda econômica
Para a próxima semana, as atenções estarão voltadas para a divulgação da produção industrial de abril e da balança comercial de maio no Brasil. No exterior, o destaque será o relatório de emprego (Payroll) dos Estados Unidos, além dos dados de abertura de vagas (JOLTS) e da inflação na Zona do Euro. Esses indicadores serão fundamentais para calibrar as expectativas sobre crescimento econômico e trajetória dos juros nas principais economias do mundo.
Do ponto de vista dos investimentos, a combinação de atividade econômica resiliente, mercado de trabalho ainda aquecido e inflação acima da meta reforça a percepção de que o Banco Central deverá manter uma postura cautelosa nos próximos meses. Embora o cenário-base continue contemplando uma trajetória gradual de redução da Selic ao longo do tempo, os dados recentes sugerem menor urgência para novos cortes, o que tende a sustentar a atratividade da renda fixa doméstica. Para os ativos de risco, o cenário permanece construtivo no médio prazo, mas sujeito a episódios de volatilidade à medida que investidores reavaliam as perspectivas para juros, crescimento e inflação, tanto no Brasil quanto no exterior.










